SOBRE MENINOS E NOMES


Lilian Piovesan

Por que meninos têm que gostar de futebol, por que meninos não choram, nem brincam com as meninas, eu também sempre quis perguntar. Mas ficava apenas sentado na minha carteira da sala de aula, apenas copiando, apenas ouvindo os professores ensinarem tudo o que eles tinham pra ensinar, e eu gostava disso, gostava de perguntar, tinha curiosidade, embora não entendesse por que uma ilha, pedaço de terra cercado de água por todos os lados, não boiava pelo oceano. E, na hora do recreio, sonhava outras possibilidades libertadoras do que significava “aja como um homem”, frase que meu pai sempre repetia; eu apenas ouvia.
Um dia, na escola, um menino me chamou para jogar. Eu não quis. Ele, vem, precisamos de um goleiro, eu fui. Me disseram: você é o último homem da linha. Óbvio que eu não agi como um.
Desistiram de mim depois disso. Vieram os xingamentos, Luluzinha, vai chorar, é?, e eu apenas ouvia.
Foram muitos anos assim. Em casa, as coisas não melhoravam essa situação. Minha mãe resolveu me colocar numa escola de futebol. Eu tentei, juro. Mas eu não encontrei nenhuma posição. Mas havia um jogador como eu. Ele me disse que meninos podem tudo isso, sim, e me pegou pela mão para me ensinar. E como eu gostava de aprender, fui com ele, e, assim como na hora do recreio eu imaginava possibilidades, ali vivi libertadoramente uma real existência pela primeira vez como um menino que não agia como homem, que não jogava futebol, que chorava, mas que gostava de ser um menino, que gostava de ser homem, e passei a amar o futebol depois do beijo naquele menino. E passei a perguntar sempre que eu não entendia as coisas, ou que entendia as coisas diferentes do que me diziam que tinha de ser assim.
__ Amor, vem, o jantar hoje é seu preferido – Francisco me chama da cozinha.
__ Já vou, o jogo tá acabando.
__ E aí, Lu, como tá essa peleja? _ Francisco senta-se ao meu lado.
__ Vozinha tá agarrando todas.
__ Me lembra o Luluzinha... __ Ele sorri e pousa a mão na minha.
Não a personagem das HQs, mas o menino, que tinha o nome de Lucimar, que era do avô. O Luluzinha que tinha ouvido muitas coisas que não queria ouvir, mas que não me tornaram menos homem. Que goleiro da porra!

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Lilian Piovesan

E-mail: lilapio@hotmail.com

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