VIDA DE PROFESSOR


Lilian Piovesan

Vida de professor não é fácil. Não é com certeza a vida que eu escolheria. Digo por ela, a que mora aqui em casa.
Hoje ela chegou já com o telefone na mão, repleto de mensagens não lidas, abrindo a porta com barulho e falando sobre trabalho: a prova de recuperação da aluna inclusa, os e-mails a serem enviados ainda hoje, as planilhas de notas, vocês imaginam que as notas têm que ser lançadas uma semana antes, as listas de exercícios, um professor ainda não mandou a sua, ela grava um áudio naquele tom que me afasta. Já são três horas, diz ela me afagando, e ele não perguntara nada sobre hoje à noite, a voz mais dengosa que a mão, denunciando a espera de uma mensagem que me roubava sua atenção há alguns dias.
Largou a bolsa, leu algumas mensagens do grupo de coordenadores do colégio, um professor não poderia dar a próxima aula, estava enviando os experimentos para a aula, querendo saber se já ela poderia copiá-los para os alunos __ vc vem a que horas? Havia marcado a massagem hoje? __ hj n vou, querida, tenho aula até às 18, depois ainda tenho uma reunião de condomínio, desculpe n ter avisado, bj. Tinha que ver uma hora ainda esta semana, quem sabe conseguiria corrigir todas as provas e marcaria para amanhã depois da terapia, isso se a terapeuta a atendesse no horário. Estava bem chateada com esses atrasos, sem vontade até de falar com ela.
A terapia é algo que faz bem a uma pessoa, bom, é o que eu a escuto dizer, mas, às vezes, ela chega pior da terapia do que sai, principalmente se eu reviro o tapete da sala, aí ela usa aquela voz alta, e ultimamente já sai sem vontade de ir. Agora ela está sentada no sofá, os pés sobre o tapete, o telefone na mão, do lado, uma pilha de papéis, eu pulo bem em cima deles. __ mãe, vc tá em casa? __ Ju, vc está chateada comigo? __ Oi, meu anjo, pode falar? __ Tivemos muitas faltas de professores hoje, peço que os coordenadores sinalizem os dias de reposição. A mão desce pesada, mesmo assim eu gosto.
As provas ficaram grandes, ainda estava na primeira folha. E as letras? Só pioraram. Seis horas já e ela nem pegara as segundas folhas, e o celular não parava, e os coordenadores falavam sem parar, e a mãe cobrava, e a mensagem não chegava, qual restaurante ele escolheria. Estava na hora do Pilates, mais um dia em que faltaria. Levantou-se para preparar um café.
Ainda bem que existe o café, porque vida de professor é igual à água fria, e eu, escaldado, sei bem a hora de pular fora, ou de amaciar a minha dona. Na hora do café, eu passo bem rápido entre suas pernas, me jogo no chão, viro-me, olho de lado. A mão vem descendo, agarro-a entre as minhas e ronrono bem baixinho um quero mais. Ela amolece, esquece as mensagens, as provas, a mãe, e aquele humano que vem aqui em casa muito de quando em vez para me botar para fora do quarto.
Ela me pega no colo, vai me levando junto com a caneca. Senta-se no sofá, pega a pilha de papéis e começa a corrigir. Sei que hoje não tem hora para dormir, muitas vezes é assim que ela faz, quando não é um fim de semana inteiro sentada em frente ao computador, mas eu gosto. Fico do ladinho dela, de vez em quando ela resmunga, pergunta a si mesma, como assim, os alunos não entenderam? Eu fico bem olhando, o que um aluno tem que entender? Eu não entendo muito bem essa coisa de papéis, planilhas, provas, atrasos, ela sempre reclama dessas coisas. Mas eu entendo a minha humana, a professora de voz doce, ora amarga; quando é doce, sei que o dia foi bom, e eu aproveito; a amargura é anunciada pelo silêncio, a única coisa que acalmará seus ouvidos cansados da própria voz.

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Lilian Piovesan

E-mail: lilapio@hotmail.com

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